Continuando a pensar sobre o X Workshop do Abba – 2015 – parte III

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Bíblia

Na parte II, apresentamos a primeira parte de um texto do Professor Jonathan Saks, que continua abaixo. Na parte I – Pensando no Workshop 2015 – Rodrigo Constantino chega à conclusão que o sucesso do povo do livro se deve ao Verbo, às Palavras, ao fato do povo guardar as palavras da Torah, ressaltando a relevância das Escrituras para o povo judeu.

Na parte II, o Rabino Saks responde a pergunta de Mark Twain – Qual o segredo da imortalidade dos judeus? Qual o segredo da continuidade judaica? – afirmando que o segredo para a continuidade judaica é o compromisso com a transmissão de um legado através das gerações. A importância reservada à educação pelo povo judeu salta aos olhos de qualquer observador. É uma ordem do Pentateuco (Torah), ressaltando o compromisso com a transmissão das Escrituras pelo povo judeu.

A seguir, apresentamos mais um trecho do texto do Rabino Sacks. É sobre a formação da identidade judaica e sua sobrevivência à e na diáspora. (grifo no final nosso)

“A formação da identidade A identidade é uma coisa delicada. É a realidade interiorizada, como nos vemos em relação ao mundo que nos cerca. Para a maioria das pessoas na maior parte do tempo, a identidade não é um problema. É fornecida pela cultura circundante e suas instituições. Para os judeus, no entanto, ela tem sido um problema na maior parte dos tempos e dos lugares no decorrer de nossa história. O motivo é simples. A identidade judaica não era fornecida pela cultura circundante, pois os judeus eram uma minoria num ambiente não-judeu. Geralmente as minorias desistem de sua luta desigual para manter sua identidade. Embora estejam baseadas em tradição, memória e hábito, gradualmente se assimilam à medida que a tradição enfraquece, a memória se embota e os hábitos são eclipsados por um ajustamento aos modos da maioria. Leva tempo – diversas gerações – para isso acontecer. Mas quase invariavelmente acontece.

Os judeus eram diferentes, pois viam sua identidade não como um acidente da história (quem eles aconteceram de ser) mas como uma vocação religiosa (quem eles foram chamados a ser). Desde o início não se contentaram com tradição, memória e hábito, a herança do passado. Eles recriaram o passado em cada geração sucessiva. Uma criança judia, em Pêssach, saboreia o pão ázimo e as ervas amargas da escravidão egípcia. Em Sucot ela se reúne aos seus ancestrais em seus tabernáculos enquanto eles viajam precariamente através do deserto. Em Tisha be’Av ela se senta com o autor de Lamentações e pranteia a destruição do Templo. Da maneira mais vívida, os judeus transmitiram suas memórias aos seus filhos.

Não somente suas memórias, mas também seu estilo de vida. Desde os dias de Moshê, os judeus têm vivido segundo as leis estabelecidas na Torá. Se isso se apoiasse apenas no hábito, teria aos poucos desaparecido quando os judeus foram exilados e dispersos. Mas os judeus

jamais se contentaram com o hábito. Acreditavam não apenas em manter a lei mas também em estudá-la. O Judaísmo Rabínico é a única civilização no mundo na qual se espera que cada cidadão não apenas obedeça à lei, como também se torne um advogado, um estudante e expoente da lei. Os judeus eram – para usar os termos de David Reisman – não voltados para a tradição, mas indivíduos voltados para seu interior. Os “faças” e “não faças” da Torá não eram um código externo, mas uma disciplina interiorizada, parte da identidade em si. Foi assim que os judeus puderam transmitir seu estilo de vida aos seus filhos.

Nem mesmo isso teria sido suficiente se não fosse por algo mais. Talvez o legado mais precioso que os judeus deixaram aos filhos seja a esperança. Desde o início, Israel tem sido um povo notavelmente orientado para o futuro. A história de Avraham começa com a promessa de um país, mas ao final do Livro de Bereshit ela ainda não tinha sido cumprida. O Livro de Shemot começa com os judeus deixando o Egito e viajando rumo à terra de leite e mel, mas pelo final de Devarim eles ainda não tinham chegado. Em contraste com quase qualquer outra fé, a idade de ouro do Judaísmo não está no passado, mas no futuro, logo acima do horizonte.

Como resultado, em todo momento de crise – o exílio da Babilônia, a destruição Romana, a expulsão da Espanha – profetas, sábios e místicos puderam resgatar um povo do desespero por meio de intimações messiânicas. Os judeus recordaram seu futuro tão ativamente como se lembravam do passado. Rezavam voltados para Jerusalém e a mencionavam constantemente porque sabiam que um dia a cidade seria reconstruída, e eles ou seus filhos voltariam. Diz-se que Napoleão, ao passar por uma sinagoga em Tisha be’Av de 1806 e escutar sons de lamentos, perguntou que tragédia tinha ocorrido. Foi informado: a destruição de Jerusalém há mil e setecentos anos. Ele replicou: uma pessoa que pode prantear uma cidade por tanto tempo, um dia a terá restaurada. Ele estava certo. A memória judaica, devido ao seu caráter peculiar, manteve viva a esperança dos judeus. Isso também levou os judeus a viverem para o futuro, o que significava para e por meio de seus filhos.

A Identidade Judaica na Diáspora

Não há nada inevitável sobre a identidade judaica na diáspora, e jamais houve. Em Israel as coisas são diferentes. Ali, alguém é judeu por viver num estado judaico, cercado por cultura e instituições judaicas. O idioma é o hebraico. O calendário é judaico. Os dias de descanso e celebrações são aqueles da Torá. “O ar de Israel” – dizem os sábios – “tornam a pessoa sábia” – porque o próprio ar de Israel está saturado com o passado judaico. Aqui estão as cidades nas quais Avraham, Yitschac e Yaacov armaram suas tendas. Há Jerusalém, a cidade de David. E ali adiante está a paisagem dos Salmos. Somente em Israel ser judeu significa estar imbuído na própria cultura do povo. Somente em Israel o Judaísmo é uma questão do que você pode ver, tocar e respirar.

Na diáspora, ser judeu sempre significou ir contra a corrente, ser contra-cultural. A forma mais natural de identidade é dizer: eu pertenço ao aqui-e-agora, ao povo que me cerca e à paisagem que posso ver toda manhã. Os judeus escolheram uma identidade mais complexa, e se não tivessem feito isso teriam desaparecido. Desde os dias de Yirmiyáhu, eles sabiam que sua responsabilidade como cidadãos era “buscar a paz da cidade à qual Eu os exilei, e rezar ao Eterno por ela, porque se ela prosperar, vocês também prosperarão.” Assim, sempre que permitido, eles entraram na vida de Cairo e Córdoba, Vilna e Vitebsk e a enriqueceram. Mas

isso era onde eles estavam, não quem eles eram. Quem eles eram foi o próprio oposto do aqui-e-agora.

Foi uma identidade de tirar o fôlego, abrangendo tempo e espaço, séculos e continentes. Os judeus foram definidos por uma rede de relacionamentos remontando ao passado bíblico e viajando até o futuro messiânico, unidos por um destino comum com judeus de todo o mundo.

A identidade judaica na diáspora foi e é uma questão da mente, não dos sentidos. É para nutrir. Vivemos através daquilo que aprendemos. Se não aprendermos o que é ser judeu, nada em nosso ambiente, exceto o anti-semitismo, nos dirá. E o anti-semitismo, embora possa nos lembrar que somos judeus, não fornece um motivo para querermos que nossos filhos o sejam. Os judeus sobreviveram, simplesmente, porque devotaram suas melhores energias à educação, seu dinheiro a escolas, sua admiração aos eruditos, suas horas livres ao estudo, e sua primeira preocupação com a matrícula de seus filhos. Sua identidade foi constantemente aprendida e reaprendida, encenada e reforçada, e passada adiante como um presente valioso para a próxima geração.

O segredo da continuidade judaica é que os judeus se importam com isso. Criaram a continuidade ao tornar a transmissão da tradição seu primeiro dever e maior alegria.”

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