Pensando mais um pouco sobre o X Workshop do Abba – 2015 – Parte II

No primeiro texto publicado nesta série em que estamos “pensando” o nosso próximo Workshop, vimos um jovem jornalista da atualidade comentando sobre o povo judeu – o povo das palavras, o povo do Livro e sobre o seu “sucesso”.

“Se há uma razão para o relativo sucesso dos judeus, talvez a explicação esteja aí: nessa obsessão pela palavra, nesse incrível legado transmitido por meio da educação. O Povo do Livro, como é dito. No princípio era o verbo. E desde então continua sendo…” são as últimas palavras de Rodrigo Constantino no texto. Clique aqui para ler na íntegra. (Grifo nosso)

Bíblia

Hoje, pensando mais um pouco sobre a Palavra e seu legado, segue parte de um texto do Rabino Jonathan Sacks, de agosto de 1993, então Rabino Chefe da Inglaterra. Diz o texto:

“ “Se as estatísticas estão corretas, os judeus constituem apenas um por cento da raça humana. Isso sugere um nebuloso grãozinho de pó de estrela perdido na imensidão na Via Láctea. Adequadamente, jamais se ouviria falar do judeu; porém se fala, e sempre se ouviu falar dele. Ele é tão proeminente no planeta quanto qualquer outro povo, e sua importância comercial é bastante fora de proporção com a pequenez de seu grupo. Suas contribuições aos grandes nomes do mundo na literatura, ciência, arte, música, finança, medicina também estão fora de proporção com seu pequeno número. Tem feito uma luta maravilhosa no mundo, em todas as épocas; e o tem feito com as mãos atadas nas costas. Os egípcios, os babilônios, os persas surgiram, encheram o planeta com som e esplendor, depois evaporaram como num sonho e sumiram; os gregos e os romanos também, fizeram muito barulho, e agora estão acabados; outros povos brotaram e levantaram sua tocha bem alto por um tempo, mas ela se queimou, e agora estão na obscuridade, ou simplesmente desapareceram. O judeu viu a todos eles, venceu a todos, sem enfraquecer suas partes, sem esmorecer suas energias, sem embotar sua mente alerta. Todas as coisas são mortais, as outras forças passam, mas ele permanece. Qual o segredo de sua imortalidade?”

Assim escreveu Mark Twain em 1898. É um belo tributo, mas termina com uma pergunta, a pergunta certa.

Qual é o segredo da continuidade judaica?

Nenhuma resposta comum será suficiente, porque a história judaica tem sido totalmente extraordinária. Os judeus permaneceram uma nação distinta sem país, poder, território, ou cultura partilhada. Foram dispersos e quase sempre uma minoria. Na maior parte recusaram os esforços ativos para convertê-los, e resistiram à assimilação. Nenhum outro povo tem mantido sua identidade intacta por tanto tempo sob tais circunstâncias. Ora, como eles puderam fazê-lo?

Uma religião de Continuidade

Muitas teorias têm sido oferecidas, mas somente uma é convincente. O segredo da continuidade judaica é que nenhum outro povo devotou mais suas energias à continuidade. O ponto focal da vida judaica é a transmissão de um legado através das gerações. O Judaísmo se concentra um seus filhos. As primeiras palavras de Avraham a D’us foram: “Dá-me filhos, pois sem eles é como se eu estivesse morto.”

Ser judeu é ser um elo na cadeia de gerações. É ser um filho e depois um pai, receber um legado e passá-lo adiante. Moshê “recebeu a Torá no Sinai e passou-a adiante…” e assim devemos nós…

Judaísmo é uma religião de continuidade.

Nós que crescemos com o Judaísmo estamos tão familiarizados com esta ideia que a aceitamos como evidente em si, mas não é. É excepcional, até mesmo única. A primeira ordem na Torá não é crer, mas ter filhos. Avraham é escolhido não por ser justo (somente Nôach é descrito como tal) mas porque “ele instruirá seus filhos e sua família depois dele.” Na iminência do êxodo do Egito, Moshê não despende tempo falando ao povo judeu sobre a terra de leite e mel que os aguarda do outro lado do Jordão. Em vez disso, ele os instrui como deveriam ensinar as futuras gerações.

Três vezes ele retorna ao tema: “E quando seus filhos perguntarem…” “Nos dias que virão, quando seus filhos perguntarem…” “Naquele dia vocês dirão aos seus filhos…” Não ainda libertados, eles estão para se tornar uma nação de educadores.

Desde o início, o Judaísmo baseou sua sobrevivência na educação. Não educação no sentido estreito e formal de aquisição de conhecimento, porém algo mais vasto. Na verdade, a palavra “educação” é inadequada para descrever a cultura de estudo e debate do Judaísmo, sua absorção em textos, comentários e contra-comentários, sua devoção à instrução e ao aprendizado a longo prazo. Descartes disse: “Penso, logo existo.” Um judeu teria dito: “Aprendo, portanto existo.” Se há um motivo condutor, um tema dominante conectando as várias eras do povo de Israel, é a entronização do estudo como valor judaico soberano.

Em um dos versículos mais famosos da Torá, Moshê ordena: “Ensinareis estas coisas diligentemente a vossos filhos, falando delas quando estiverem em casa ou quando viajarem, quando se deitarem e quando se levantarem.” O primeiro Salmo descreve o ser humano feliz como aquele que “estuda Torá dia e noite”. Num surpreendente comentário, os rabinos disseram: “Mais vale um erudito ilegítimo que um sumo sacerdote ignorante.”

A paixão principal, ardente, incandescente dos judeus foi o estudo. Suas cidadelas eram escolas. Seus líderes religiosos foram sábios; a palavra rabi não significa sacerdote ou homem sagrado, mas mestre. Mesmo quando estavam assolados pela pobreza, asseguraram que seus filhos fossem educados.

Na França do século doze um erudito cristão declarou: “Um judeu, embora pobre, se tiver dez filhos coloca a todos no estudo, não para ganhar como fazem os cristãos, mas pela compreensão da lei de D’us – e não somente os filhos mas também as filhas.”

No shtetl da Europa Oriental, o estudo conferia prestígio, status, autoridade, respeito. Os eruditos ocupavam os assentos nobres na parede leste da sinagoga. Em seu delicioso estudo sobre a cultura do shtetl, A Vida é com Pessoas, Zborowski e Herzog descrevem as prioridades da família judaica: “A mãe, que controla o orçamento da família, corta os custos da comida ao limite se necessário, para pagar pelos estudos dos filhos. Se o pior acontecer, ela empenhará suas queridas pérolas para pagar a mensalidade escolar. O menino deve estudar, tornar-se um bom judeu – para ela os dois são sinônimos.”

O resultado foi que os judeus sabiam. Sabiam quem eram e por quê. Conheciam sua história. Conheciam suas tradições. Sabiam de onde vieram e onde tinham deixado o coração. Tinham um senso de identidade e orgulho. Conheciam Avraham, Moshê, Yeshayáhu, Hilel, Akiva, Rashi e Maimônides, pois tinham estudado suas palavras e debatido seu significado. A Torá foi o lar portátil do judeu, e ele conhecia sua paisagem, suas montanhas e vales, até melhor que a paisagem do lado de fora de suas janelas.

Jerusalém jazia em ruínas, mas eles estavam familiarizados com suas ruas pelo Talmud e pelos Profetas, e caminhavam na cidade dourada da mente.

Em nenhum outro lugar o estudo, a erudição e a cultura eram tão largamente difundidas, tão valorizadas como entre o povo do Livro. Paul Johnson descreve a vida judaica tradicional como uma “antiga e eficiente máquina social para a produção de intelectuais.” Era uma aristocracia do espírito e da mente. Nem todo mundo – disse Maimônides – pode ser um cohen – sacerdote. Mas a coroa da Torá – a mais valiosa de todas as coroas – está disponível para todos.

Pensem conosco…

Continuaremos nos próximos posts.

Anúncios

Pensando no nosso X Workshop 2015 – Parte I

Este evento será muito especial pois estaremos celebrando a sua décima edição. E pensando sobre os temas a serem abordados, veio à nossa mente uma mensagem que aparece sistematicamente nas Escrituras e que é atualíssima: o real valor da Palavra.

Para vocês irem pensando sobre o assunto, segue o texto do jornalista Rodrigo Constantino, colunista da Revista Veja, de 10 de março desde ano. O grifo no final do texto é por nossa conta. O link é http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/historia/o-povo-do-livro-os-judeus-e-as-palavras/

O Povo do Livro: os judeus e as palavras

O povo do livro

Contando com apenas 0,2% da população mundial e 2% da população americana, os judeus ganharam 22% de todos os Prêmios Nobel, 20% das Medalhas Fields para matemáticos e 67% das Medalhas John Clarke Bates para economistas com menos de 40 anos. Judeus também ganharam 38% de todos os prêmios Oscar para melhor diretor, 20% dos Pullitzer Prizes para não-ficção e 13% dos Grammy Lifetime Achievement Awards.

Essas informações constam em uma nota de rodapé do livro Civilization, de Niall Ferguson, de 2011. Desde então, judeus acumularam mais alguns desses prêmios. Além disso, Israel, com apenas 8 milhões de habitantes, é a grande locomotiva mundial quando o assunto é tecnologia, e possui mais empresas listadas no Nasdaq do que toda a Comunidade Europeia junta.

Diante desses dados, o leitor pode concluir que os judeus fazem parte de um grande complô mundial, uma conspiração planetária que os coloca no domínio de tudo, como queriam os antissemitas que produziram Os Protocolos do Sábio de Sião; ou então que eles possuem uma inegável superioridade genética. Não aprecio nenhuma das duas alternativas, e fico com uma terceira, mais plausível: o ambiente cultural do judaísmo é um fator de diferenciação que abre certa vantagem na hora de competir no mercado.

E o que justificaria tal vantagem? Que segredo cultural seria este? O novo livro do escritor israelense Amós Oz, escrito com sua filha, a historiadora Fania Oz-Salzberger, oferece uma boa dica. Em Os judeus e as palavras, os autores mergulham no grande legado do judaísmo, que não seria apenas ou principalmente religioso, muito menos genético, e sim cultural. No princípio era o verbo, e desde então também. O conteúdo verbal, transmitido de geração em geração, é o que forma esse continuum único, que sempre serviu como cola para unir os hebreus e lhes transmitir certas características interessantes.

Vale notar que os autores são judeus seculares, e com viés de esquerda quando o assunto é política. Isso não os impediu de defender a tradição, a importância da Bíblia judaica como fonte de valores, alegorias e mitos fundadores. Ao mesmo tempo em que buscam no legado das palavras de antepassados a inspiração para explicar a continuidade judaica, reconhecem

que uma das características mais marcantes desse legado é justamente a ousadia de questionar, de inovar, e isso faz toda a diferença. Não só os judeus foram historicamente mais alfabetizados, por depositar grande importância na palavra, como eram questionadores e adoravam um bom debate.

“Nenhuma civilização antiga”, escreveu Mordecai Kaplan, “pode oferecer um paralelo comparável em intensidade com a insistência do judaísmo em ensinar os jovens e inculcar neles as tradições e costumes de seu povo”. Não eram apenas os ricos, mas todos os jovens que eram colocados em contato com a palavra escrita, e numa idade bastante tenra. E mais: eles aprendiam desde cedo a perguntar, questionar. No Talmude, uma opinião inteligente de um jovem às vezes prevalecia sobre a de seu mestre. Um bom aluno deve ser livre para criticar seu mestre. No judaísmo, os alunos eram encorajados a se erguer contra o professor, discordar dele, tentar provar que ele estava errado.

“Uma descendência informada é a chave para a sobrevivência coletiva”, escrevem os autores. Como povo exilado, os judeus compreenderam cedo que precisavam transmitir a memória nacional em forma de textos, o que permitiu esse foco na educação. Além disso, as histórias hebraicas presentes nesses textos não eram somente morais ou religiosas, mas também legais. Versavam sobre detalhes da vida no cotidiano, suas personagens, ainda que fictícias (ou não), eram indivíduos com problemas reais. Regras de conduta eram assim transmitidas.

Enquanto outras culturas tratavam as crianças como “puras”, vendo inocência na ignorância, os judeus eram mais realistas e sabiam que crianças não eram anjos, e que precisavam ser aculturadas. Os judeus valorizam a erudição. Não há sancta simplicitas para eles. Era preciso “passar a tocha” intelectual para a próxima geração, para que a mensagem pudesse sobreviver, assim como os valores e costumes. Essa educação baseada em perguntas era espirituosa, tratava de ideias, encorajava a curiosidade e exigia leitura.

“A propensão a discutir e o humor geram aquele outro traço judaico, a irreverência”, afirmam os autores. A palavra chutzpá captura bem essa ideia. Nem mesmo o Todo Poderoso ficou livre dessa irreverência, dos questionamentos, cobranças ou mesmo humor. “Não só não existe Deus, mas tente conseguir um encanador no fim de semana”, disse o sacrílego judeu Woody Allen, herdeiro dessa tradição. Mas não pense que está só ou é um caso isolado. Quando o repórter da BBC perguntou a um rabino de Jerusalém qual a sensação de rezar pela paz entre judeus e árabes no Muro Ocidental (das lamentações) nos últimos trinta anos, ele respondeu: “É como falar com um muro de tijolos”.

Apesar de patriarcal ou mesmo machista, como todas as civilizações antigas, o judaísmo antigo dava um crédito enorme às mulheres. A Bíblia é plena de mulheres fortes, poderosas, ativas, vocais e individualizadas, que fazem a diferença. Ninguém vai sustentar que as meninas eram tratadas como os meninos, mas poucas culturas abriram tanto espaço para a educação feminina. “E assim”, argumentam os autores, “quando as universidades abriram seus portões havia muito fechados, tanto para judeus quanto para mulheres, elas estavam mais que prontas”. Não por acaso as judias despontaram em várias áreas no século XX.

“As palavras eram suas catedrais”, dizem de forma poética pai e filha no livro. Eram histórias de indivíduos, sem deixar de lado a importância do coletivo, e sem valorizar o martírio ou a

morte, e sim a vida e a sobrevivência, até porque os judeus já tinham sofrido o suficiente com o exílio e as perseguições. Isso alimentava a esperança, o desejo de superação, e tudo por meio da educação formal, da leitura dos livros sagrados. Foi assim que os judeus preservaram sua civilização, mas uma civilização viva, aberta ao questionamento, ao novo, com disputas infindáveis de diferentes interpretações. Bastam três judeus para termos quatro opiniões diferentes, diz a “piada”.

Se há uma razão para o relativo sucesso dos judeus, talvez a explicação esteja aí: nessa obsessão pela palavra, nesse incrível legado transmitido por meio da educação. O Povo do Livro, como é dito. No princípio era o verbo. E desde então continua sendo…

Rodrigo Costantino